“Não aleijemos a pobre humanidade mais do que ela já está com tantas sacudidelas da direita para a esquerda e da esquerda para a direita, de cima para baixo e de baixo para cima. Do individualismo para o colectivismo e do colectivismo para o individualismo”. Almada Negreiros, in "Ensaios".
17 de janeiro de 2012
16 de janeiro de 2012
PORQUE NÃO APRENDEMOS COM OS BÁRBAROS?
Na Noruega, o horário de trabalho começa cedo (às 8 horas) e acaba cedo (às 15.30 h). As mães e os pais noruegueses têm uma parte significativa dos seus dias para serem pais, para proporcionar aos filhos algo mais do que um serão de televisão ou videojogos. Têm um ano de licença de maternidade e nunca ouviram falar de despedimentos por gravidez.
13 de janeiro de 2012
12 de janeiro de 2012
A ESCOLA NÃO FORMA CIDADÃOS, FORMA AMANUENSES!
Vamos aceitar uma premissa inaceitável: que a escola serve para preparar trabalhadores. Inaceitável porque isso transforma os cidadãos em mera mão de obra e as suas crias em máquinas de produção em potência. A escola serve para dar a todos os cidadãos, independentemente da sua origem social e cultural, igualdade de oportunidades. Não apenas no trabalho, mas em todos os domínios da sua vida. A escola serve para transmitir conhecimentos de geração para geração, transmitir valores e incentivar o sentido critico de todos. Pelo menos a escola pública. Pelo menos numa sociedade democrática e livre. Mas aceitemos, por uns minutos, a ideia de que não passamos de produtores de bens e serviços. Mesmo assim, a revisão curricular - nenhum governo se considera no ativo sem fazer uma - preparada por Nuno Crato vai no mau caminho.
Vai no mau caminho mas não é surpreendente. Só quem não acompanhou os escritos de Nuno Crato - que, na sua imaginação, pensa que a escola portuguesa está dominada pelas teorias da "Escola Moderna" quando, na realidade, é uma escola tradicional e conservadora - não sabe que, para ele, a escola só serve para ensinar a "escrever e contar". Para isso servia a escola do Estado Novo que, ao contrário do que muitos gostam de pensar, não preparava nem cidadãos preocupados nem trabalhadores competentes. Isto, apesar dos alunos com maiores dificuldades financeiras e culturais estarem, em grande parte, excluídos dos seus níveis mais avançados.
Que fique claro: considero o domínio da língua materna, da história, da geografia e da matemática - assim como da história do pensamento (a filosofia) e de uma ou duas línguas estrangeiras - instrumentos fundamentais para, ao longo da vida, pensar, adquirir conhecimentos e aplicá-los a novas realidades. Mas não chega. Assim de repente, recordo-me de pelo menos mais quatro capacidades indispensáveis: o sentido critico, a criatividade, o raciocínio abstrato (para o qual a matemática é importante mas não chega) e a capacidade de argumentação - incluindo a retórica e a qualidade da expressão oral, que, ao contrário do que acontece na cultura anglo-saxónica, é desprezada na nossa escola em detrimento da escrita como tão bem se nota na qualidade média das aulas ministradas. Sem elas, seremos meros executores e burocratas incapazes de continuar a aprender.
Sei que um País que andou a empinar linhas de ferro e rios despreza a ideia de que a escola serve para mais do que adquirir conhecimentos. Só que o que é verdade hoje não o é amanhã. Já a capacidade de aprender e criar não se desatualiza. Mais do que conhecimentos, a escola tem de nos dar ferramentas (estas não dispensam conteúdo, como é evidente).
Quais são, então, as alterações curriculares do ministro Crato? A primeira: desvalorização da Educação Visual e Tecnológica e redução da carga horária de Educação Musical, que só existe no segundo ciclo. Isto quando não existe mais nenhuma disciplina artística. A ideia de que a criatividade é dispensável no ensino é típica da corrente ideológica em que se engaja o ministro Crato. Mas mesmo do ponto de vista estreito da preparação para o mundo do trabalho é de tal forma vesga que espanta a naturalidade com que é aceite. Quando se sabe que só conseguiremos ser competitivos no exterior se acrescentarmos valor ao que produzimos, que esse valor depende do design ou da inovação tecnológica e que sem criatividade resta-nos o salário baixo para vender barato o que não presta, esta é uma escolha coerente com todas as restantes que este governo tem tomado noutros ministérios: os cidadãos são força bruta, os trabalhadores mão de obra intensiva, os nossos concorrentes são os países pobres com sistemas de ensino subdesenvolvidos. O resultado será o que se imagina: o do passado.
O fim da Formação Cívica bate certo com tudo o resto. A escola não forma cidadãos, forma amanuenses. E nada como cidadãos ignorantes dos seus direitos e deveres para continuarem a aceitar tudo de braços cruzados. Deve deixar de ser uma salada de frutas onde tudo cabe? Deve. Mas tem de existir. O fim do estudo acompanhado, que, melhorado onde não é bem utilizado, seria uma excelente forma de não deixar ninguém de fora da progressão escolar e, como aconselhou o Conselho Nacional de Educação, contribuir para que os alunos (sobretudo os que não são acompanhados em casa) ganhem métodos de estudo.
Para deixarem a sua marca, os autarcas fazem rotundas e os ministros da educação reformas curriculares. Nuno Crato não quer fugir à regra. E a sua reforma dá um sinal do que ele espera da escola: meninos que saibam ler e escrever e nada mais. Soa bem ao populismo antipedagógico que se instalou no senso comum. É um desastre para o nosso futuro. Como saberá quem conheça os melhores sistemas de ensino da Europa. Ficaremos, também aqui, para trás.
Vai no mau caminho mas não é surpreendente. Só quem não acompanhou os escritos de Nuno Crato - que, na sua imaginação, pensa que a escola portuguesa está dominada pelas teorias da "Escola Moderna" quando, na realidade, é uma escola tradicional e conservadora - não sabe que, para ele, a escola só serve para ensinar a "escrever e contar". Para isso servia a escola do Estado Novo que, ao contrário do que muitos gostam de pensar, não preparava nem cidadãos preocupados nem trabalhadores competentes. Isto, apesar dos alunos com maiores dificuldades financeiras e culturais estarem, em grande parte, excluídos dos seus níveis mais avançados.
Que fique claro: considero o domínio da língua materna, da história, da geografia e da matemática - assim como da história do pensamento (a filosofia) e de uma ou duas línguas estrangeiras - instrumentos fundamentais para, ao longo da vida, pensar, adquirir conhecimentos e aplicá-los a novas realidades. Mas não chega. Assim de repente, recordo-me de pelo menos mais quatro capacidades indispensáveis: o sentido critico, a criatividade, o raciocínio abstrato (para o qual a matemática é importante mas não chega) e a capacidade de argumentação - incluindo a retórica e a qualidade da expressão oral, que, ao contrário do que acontece na cultura anglo-saxónica, é desprezada na nossa escola em detrimento da escrita como tão bem se nota na qualidade média das aulas ministradas. Sem elas, seremos meros executores e burocratas incapazes de continuar a aprender.
Sei que um País que andou a empinar linhas de ferro e rios despreza a ideia de que a escola serve para mais do que adquirir conhecimentos. Só que o que é verdade hoje não o é amanhã. Já a capacidade de aprender e criar não se desatualiza. Mais do que conhecimentos, a escola tem de nos dar ferramentas (estas não dispensam conteúdo, como é evidente).
Quais são, então, as alterações curriculares do ministro Crato? A primeira: desvalorização da Educação Visual e Tecnológica e redução da carga horária de Educação Musical, que só existe no segundo ciclo. Isto quando não existe mais nenhuma disciplina artística. A ideia de que a criatividade é dispensável no ensino é típica da corrente ideológica em que se engaja o ministro Crato. Mas mesmo do ponto de vista estreito da preparação para o mundo do trabalho é de tal forma vesga que espanta a naturalidade com que é aceite. Quando se sabe que só conseguiremos ser competitivos no exterior se acrescentarmos valor ao que produzimos, que esse valor depende do design ou da inovação tecnológica e que sem criatividade resta-nos o salário baixo para vender barato o que não presta, esta é uma escolha coerente com todas as restantes que este governo tem tomado noutros ministérios: os cidadãos são força bruta, os trabalhadores mão de obra intensiva, os nossos concorrentes são os países pobres com sistemas de ensino subdesenvolvidos. O resultado será o que se imagina: o do passado.
O fim da Formação Cívica bate certo com tudo o resto. A escola não forma cidadãos, forma amanuenses. E nada como cidadãos ignorantes dos seus direitos e deveres para continuarem a aceitar tudo de braços cruzados. Deve deixar de ser uma salada de frutas onde tudo cabe? Deve. Mas tem de existir. O fim do estudo acompanhado, que, melhorado onde não é bem utilizado, seria uma excelente forma de não deixar ninguém de fora da progressão escolar e, como aconselhou o Conselho Nacional de Educação, contribuir para que os alunos (sobretudo os que não são acompanhados em casa) ganhem métodos de estudo.
Para deixarem a sua marca, os autarcas fazem rotundas e os ministros da educação reformas curriculares. Nuno Crato não quer fugir à regra. E a sua reforma dá um sinal do que ele espera da escola: meninos que saibam ler e escrever e nada mais. Soa bem ao populismo antipedagógico que se instalou no senso comum. É um desastre para o nosso futuro. Como saberá quem conheça os melhores sistemas de ensino da Europa. Ficaremos, também aqui, para trás.
Subscrever:
Mensagens (Atom)


